Efeito Pratfall – quando o erro humaniza

Eu gosto muito do conceito do Efeito Pratfall porque ele explica, com uma clareza quase desconfortável, uma coisa que eu vejo acontecer o tempo todo nas empresas: quanto mais competente uma pessoa é percebida, mais um pequeno deslize pode torná-la… mais humana e mais próxima. E, paradoxalmente, isso pode aumentar a influência dela, não diminuir. Já quando alguém ainda não construiu credibilidade, o mesmo tipo de erro tende a reforçar a dúvida e a insegurança em quem está olhando de fora.

Na prática, o que esse efeito me ensina é que o “problema” raramente é o erro em si. O problema é o contexto, a reputação construída e, principalmente, a forma como o líder lida com aquilo. Em ambientes corporativos, eu vejo líderes tentando sustentar uma imagem de perfeição como se isso fosse sinônimo de autoridade. Só que a perfeição, na convivência diária, tem um efeito colateral: ela cria distância. O líder vira alguém admirado, mas não necessariamente acessível.

E liderança que não gera acesso vira uma liderança que até é respeitada, mas não mobiliza o melhor das pessoas.

O Efeito Pratfall aparece com força quando a gente observa líderes reconhecidos como tecnicamente bons, consistentes, que entregam resultado, e ainda assim conseguem manter um tipo de presença simples, real. Vou dar exemplos que eu já vi de perto. Um diretor em uma reunião com time global, sendo questionado por uma área dura como finanças, poderia tentar “vencer pelo argumento” a qualquer custo. Em vez disso, ele assume com tranquilidade: “Eu não tenho esse número agora e não vou improvisar. Eu te retorno hoje até o fim do dia com a informação certa e com a recomendação.” O efeito na sala é imediato. Ninguém pensa “ele é fraco”. As pessoas pensam “ele é confiável”. E confiança é uma moeda muito mais valiosa do que uma performance perfeita. Em outra situação, uma líder de RH conduzindo um processo de mudança grande com reestruturação, ruído, ansiedade e resistência do time escolhe ser transparente sem ser dramática: “Tem coisa aqui que eu também gostaria que estivesse mais clara, e nem tudo está sob nosso controle. O que eu posso garantir é: eu vou comunicar rápido, com verdade, e vou proteger o time do que for injusto.” Esse tipo de fala não reduz autoridade. Pelo contrário: ela reduz medo. E onde o medo cai, a colaboração sobe.

É aqui que eu conecto diretamente com a vulnerabilidade no sentido que a Brené Brown traz. Muita gente confunde vulnerabilidade com exposição emocional sem filtro, ou com fragilidade. Só que a Brené insiste em algo essencial: vulnerabilidade é coragem. É a disposição de aparecer de forma verdadeira quando existe risco emocional envolvido, risco de julgamento, de crítica, de não agradar. No mundo corporativo, isso não significa “desabafar” em toda reunião. Significa ter maturidade de dizer “não sei ainda”, “eu errei”, “eu preciso de ajuda”, “eu mudei de ideia” quando isso é necessário para manter integridade, clareza e segurança. A vulnerabilidade, quando bem colocada, não enfraquece a liderança. Ela humaniza. E a humanização, quando vem acompanhada de competência e consistência, vira influência.

Eu costumo dizer que liderança hoje é muito menos sobre parecer forte e muito mais sobre sustentar a realidade. E sustentar a realidade exige coragem para lidar com duas coisas ao mesmo tempo: a exigência por entrega e a complexidade humana do trabalho. Porque gente não é planilha. Gente tem medo, expectativa, insegurança, ambição, orgulho, frustração. Quando um líder tenta ser impecável o tempo todo, ele passa uma mensagem silenciosa para o time: aqui não tem espaço para erro, aqui não tem espaço para dúvida, aqui não tem espaço para tentativa. O resultado não é excelência. O resultado é autoproteção. As pessoas começam a escolher o “seguro” em vez do “melhor”. Param de trazer problema cedo. Param de inovar. E aí a empresa paga a conta na forma mais cara possível: queda de autonomia, de confiança e de velocidade.

Agora, quando o líder já é reconhecido por entregar, e ele se permite pequenas demonstrações de humanidade, o efeito é outro. Eu já vi gerente de área técnica que era muito respeitado pelo time e que, numa reunião de lições aprendidas, disse algo do tipo: “Eu percebi que eu estava empurrando o ritmo além do saudável. Eu achei que estava protegendo resultado, mas eu estava gerando desgaste. Eu vou ajustar minha forma de cobrar, e eu quero que vocês me avisem quando eu sair do ponto.” Isso cria um ambiente onde as pessoas não só trabalham. Elas se engajam. Porque existe espaço para verdade. E quando existe espaço para verdade, existe espaço para responsabilidade real, não aquela responsabilidade performática, feita pra agradar.

Um exemplo mais “robusto”, típico de operação, é a gestão de falhas. Quando acontece uma falha relevante, tem líder que entra no modo “achar culpado”. E tem líder que entra no modo “aprender rápido”. O primeiro vira um gerador de medo. O segundo vira um organizador de maturidade. Um gestor de produção que eu vi fazer isso muito bem começou uma reunião difícil dizendo: “Nós vamos falar de erro, sim. Mas o objetivo aqui não é punir ninguém. O objetivo é entender o sistema e impedir repetição. Se alguém estiver escondendo informação por medo, a gente não aprende nada e repete o erro. Então eu preciso de transparência e eu assumo a responsabilidade de garantir que essa conversa seja justa.” Olha a combinação: firmeza e humanidade. Exigência e segurança. Isso é liderança moderna. Isso é vulnerabilidade do jeito certo: não é fraqueza, é sustentar o ambiente para que as pessoas tenham coragem de falar a verdade.

O Efeito Pratfall, nesse sentido, vira quase um “alerta” para líderes que tentam ganhar autoridade no grito da perfeição. Não dá certo por muito tempo. A autoridade mais estável nasce de três coisas: entrega consistente, comunicação clara e humanidade. E humanidade aqui não é “ser bonzinho”. É ser real. É assumir quando não tem resposta, admitir quando erra, pedir ajuda quando precisa, corrigir rota sem ego, e manter o time informado com respeito. Esse pacote cria confiança. E confiança não é um sentimento bonito; confiança é um acelerador de performance.

Se eu tivesse que transformar isso em uma prática diária, eu resumiria assim: eu construo credibilidade com consistência e eu construo conexão com verdade. Eu não preciso escolher entre ser respeitado e ser acessível. Eu posso ser os dois. E quando eu consigo equilibrar isso: competência com vulnerabilidade eu vejo o time inteiro mudar. As pessoas ficam mais responsáveis, mais sinceras, mais colaborativas e, curiosamente, mais exigentes com elas mesmas. Porque não estão jogando o jogo da aparência. Estão jogando o jogo do resultado com maturidade.

No fim, o Efeito Pratfall e a vulnerabilidade da Brené Brown apontam para a mesma direção: liderança não é sobre parecer impecável. É sobre ser confiável. E confiável é quem tem coragem de ser verdadeiro, especialmente quando seria mais fácil fingir controle.

E você? como tem aplicado este conceito em sua carreira e liderança?

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Cristiano Santos é head da People DH,  especialista em liderança e produtividade e autor do livro LEADER SKILLS, competências estratégicas para liderança e produtividade.

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